Quarentenando

Há alguns dias vi uma colega de profissão postando que "é muito difícil ver seu trabalho considerado não essencial..." e fiquei pensando como muitas vezes nós analisamos as coisas de forma negativa sem parar para pensar no que aquilo realmente significa.


Todos nós sabemos que a moda ocupa um grande espaço em nossas vidas (afinal ninguém anda pelado por aí!), usamos roupas 24 horas por dia todos os dias. Podemos interpretar, quando dizem que fazemos parte do comércio "não essencial", não de uma forma pejorativa, como se nosso trabalho estivesse sendo desqualificado, mas sim como se fosse possível dar uma parada nisso tudo. Por exemplo, não é possível parar de comer, ou pedir para uma doença esperar. Mas acredito que todos nós aqui temos uma quantidade mais do que o suficiente de roupas para nos vestirmos diariamente (ainda mais na quarentena). Então quando vejo dizerem que a moda não faz parte do comércio essencial, eu penso que é porque a moda tem outras possibilidades. É possível diminuir seu consumo, é possível fazer moda de outra forma, é possível repensar nossa relação com a moda e as roupas que usamos, compramos e descartamos.


Sim, para quem trabalha na indústria pode ser um pouco mais difícil ter esta visão mais otimista da situação, pois a moda emprega milhões de pessoas no Brasil e no mundo. Mas não é de hoje que pessoas da própria indústria estão repensando o consumo exagerado e os impactos gerados pelo fast fashion. Inclusive, para quem ainda não sabe, gigantes do fast fashion já estavam declarando falência antes mesmo de se falar em pandemia. Quem escolheu trabalhar com a moda por amor, já percebeu que não é mais possível sustentar este tipo consumo. Toda a cadeia de produção está entrando em colapso e mesmo empregando milhões de pessoas, quem realmente se beneficia com isso são apenas os donos das grande empresas.


Por isso é difícil ouvir que não fazemos parte do comércio essencial, mas é preciso ouvir isso de coração aberto e pensar porque não é? Por que a moda muitas vezes é considerada fútil? Muito provavelmente porque nós fizemos ela assim, passageira, descartável, sem sentido. Vamos aproveitar esta oportunidade para ressignificar tudo isso. Vamos repensar nossa relação com a moda e o consumo. Vamos fazer produtos que façam sentido, que façam a diferença. E isso não é trabalho apenas de quem faz moda, mas sim de todos nós como consumidores. Você já se perguntou qual a relação que você tem com as suas roupas? Qual a importância que você dá a elas?


Para que a frase faça mais sentido, podemos dizer então que "a moda descartável não é essencial". Vamos repensar nossos hábitos de consumo e mudar a forma como a indústria produz. Para que ela realmente faça a diferença, gere renda para quem precisa e, ao mesmo tempo, se preocupe com o impacto ambiental. Nós não precisamos que grandes empresas façam isso, precisamos é valorizar quem faz um trabalho justo e ético.


Não sabe por onde começar? Comece pelo seu bairro, pela sua cidade, por quem está próximo. Você conhece quem faz suas roupas? Para quem você está dando seu dinheiro? Qual vida você está impactando e de que forma? Vamos repensar tudo isso juntos e mostrar que a moda é essencial para aqueles que se importam.


Gabi








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